O transístor e o rock’n roll

O transístor e o rock’n roll

Geralmente associamos inovação à tecnologia, mas é fato que ela se expressa em campos tão diversos quanto o científico e o das artes e entretenimento. A inovação se alimenta da diversidade de disciplinas, portanto esta categorização em campos talvez faça mais sentido para o resultado de sua aplicação final do que para a seleção dos conhecimentos que participam do processo de inovação em si. Como disse Stephen Hawking, existe um escopo imenso para a inovação em todos os domínios da vida. Exemplos tecnológicos estão mais à nossa vista, como a eletricidade, o computador e a internet, mas, se migrarmos para um campo diferente, podemos encontrar um exemplo que também consiste no resultado de um processo colaborativo de criação: o rock’n roll. E este, particularmente, participou de um encontro inusitado com uma outra inovação que o ajudou em muito a ganhar popularidade. 

Nascido para agitar

Se o rock fosse tratado simplesmente como um gênero musical, suas sementes definiriam sua origem na década de 1910 em gravações country e blues que já traziam muitos dos seus elementos, entretanto ele representa um movimento bastante mais amplo que veio a florescer somente na década de 1950. Ele pegou emprestado do blues seus elementos harmônicos, do country e do gospel seus temperos melódicos, usou da tecnologia para eletrificar a guitarra e o contrabaixo e trouxe em suas letras expressões que representavam a rebeldia e indignação de uma geração questionadora. Essa sequência de contribuições criativas diversas já tornaria o rock um bom candidato à categoria de inovação, mas encontramos ainda mais elementos. 

Uma característica da inovação é que ela nasce de uma necessidade, e aqui também não foi diferente. Entre as décadas de 1940 e 1950 o jazz das big bands e o recém nascido pop de Mitch Miller pouco interessavam à juventude, portanto havia uma lacuna, o que produtores e gravadoras rapidamente perceberam. Era necessário um novo produto, e o rock viria ocupar este espaço. E, nesta mesma época, uma outra transformação acontecia.

A era dos zeros e uns

A primeira concepção do que hoje chamamos de computador de uso geral data de 1833. Trata-se da máquina analítica de Charles Babbage, que não fora construída por restrições técnicas, financeiras e políticas da época. A partir deste modelo conceitual, sua assistente, a matemática Ada Lovelace, elaborou uma sequência de instruções que permitia à máquina computar valores de funções matemáticas. Com efeito, passou a ser reconhecida por ter escrito o primeiro algoritmo da história da computação, estabelecendo o princípio do software. 

Para tornar aplicáveis estes conceitos, diversas evoluções ocorreram no sentido de viabilizar os estados elementares da computação a partir de dispositivos físicos, o que não era uma tarefa trivial. Esta dificuldade explica em grande parte a escolha pelo sistema de representação binária (zeros e uns), que é a base da computação moderna, pois seriam necessários apenas dois estados: ligado e desligado. Essa escolha, porém, acarretava na exigência de um grande número destes dispositivos.

Os primeiros candidatos foram os relés eletromecânicos, utilizados por Alan Turing para construir a máquina que veio a decifrar os códigos militares alemães mais de cem anos depois. Na mesma década de 1940 e também com fins militares, entrou em funcionamento o computador ENIAC, que substituiu os relés por válvulas termiônicas. Mais precisamente 17.468 delas. Tanto relés quanto válvulas cumpriam esta função de chaveamento entre zeros e uns, mas eram demasiadamente caros, grandes e desajeitados.

O resistor de transferência 

Em 1956, os físicos John Bardeen e Walter Brattain receberam o prêmio Nobel por sua notável criação, anunciada ao mundo oito anos antes, e que viria a revolucionar a computação digital. O transístor consistiu numa solução confiável, barata e escalável para a questão da representação física dos estados elementares zero e um. Ele funciona como uma chave que alterna seu estado entre aberto e fechado a partir de pulsos elétricos e é composto de materiais semicondutores como o germânio e o silício. 

Da mesma forma que seus antecessores, suas aplicações iniciais foram no contexto militar. O primeiro computador totalmente transistorizado foi criado em 1954 nos laboratórios Bell para a Força Aérea Americana e possuía 800 transístores (nos dias de hoje um microprocessador contém cerca de 1,5 bilhões). 

Além de sua função de chaveamento, o transístor também atua como amplificador e retificador de sinais, e essa versatilidade o tornou o componente ativo presente em praticamente todos os aparelhos eletrônicos modernos. Mas isto levou um tempo para acontecer. É característico das novas tecnologias que apresentem alto custo de produção nos seus primeiros anos de vida e, sob este efeito, a aplicação do transístor se limitou aos grandes computadores nos primeiros anos da década de 1950. A medida que sua produção ganhava escala, os fabricantes passaram a disponibilizar o transístor a um custo bastante mais acessível com interesse em desenvolver novos mercados e estimular novas aplicações. Com efeito, elas passaram a surgir rapidamente, e dentre elas uma que viria a se tornar bastante popular.

O setlist familiar 

Até meados da década de 1950, as famílias se reuniam em torno dos seus aparelhos de rádio para escutar música, notícias e transmissões esportivas. De fato, desde o período pós-primeira-guerra, quando se iniciaram as transmissões de rádio, os aparelhos se utilizavam das mesmas válvulas termiônicas, portanto eram equipamentos grandes e de alto consumo de energia, e que ficavam em cima das mesas ou embutidos em móveis de madeira.

Mais de trinta anos se passaram e o rádio ainda era um ativo familiar sob comando do chefe da família, pois a tecnologia ainda não viabilizava a criação de um dispositivo portátil. Com efeito, o recém nascido rock’n roll não conseguia ganhar muito espaço na programação familiar, já que era considerado um símbolo de rebeldia e insubordinação. Até que chegou o transistor.

O prescursor do iPod

O transístor se apresentou como um ótimo candidato para viabilizar o rádio portátil e isso estimulou uma corrida entre empresas ao redor do mundo pelo pioneirismo. Em maio de 1954, a Texas Instruments demonstrou o funcionamento de um rádio AM transistorizado, ao mesmo tempo que a alemã Intermetall e a Sony apresentavam seus protótipos. Mas uma parceira entre a Texas Instruments e a Regency (uma empresa de Indianapolis) ofereceu ao mercado o primeiro modelo comercial, em outubro do mesmo ano.

O modelo TR-1 foi o primeiro rádio portátil a ser comercializado, tornando-se precursor dos dispositivos pessoais de entretenimento, permitindo aos ouvintes selecionarem seus próprios “setlists”, inclusive os de rock’n roll. As pessoas podiam ouvir o que quisessem em qualquer lugar, a qualquer momento, de acordo com suas próprias escolhas. O rock representava essa liberdade e transistor permitiu isso.

Tanto o transístor quanto o rock resultaram de processos criativos e colaborativos, e neste exemplo a inovação tecnológica ajudou a impulsionar e até mesmo viabilizar uma inovação cultural, que possivelmente não teria a mesma força caso seu acesso tivesse sido mais restrito. Há um papel importante da tecnologia ao permitir alcance e, porque não dizer, liberdade. Mas este é um bom tema para um outro artigo. 🙂

por Paulo André Domingos
pandre09@gmail.com

É difícil encontrar um filme que conecte os dois temas (e que eu tenha firmeza em recomendar) portanto escolhi um que fala de música e que achei bastante interessante e criativo: “Hearts beat Loud”, 2018, de Brett Haley.

https://m.imdb.com/title/tt7158430/?ref_=m_nv_sr_1

hearts

6 comentários sobre “O transístor e o rock’n roll

  1. COmo sempre, muito interessante! Parabéns pela forma clara de nos mostrar a história e as ligações que não percebemos no nosso dia a dia, pois vemos apenas os resultados delas. Muito bom!

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  2. Muito legal PA, adorei! Seu texto é inspirador! Inovação, tecnologia, o livre pensar que possibilita o criar.. tudo ao nosso redor tem um pouco de cada! 👏👏

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  3. Grande PA, parabéns pelo artigo.
    O mais interessante da sua comparação da evolução da música e a evolução digital é a reflexão sobre o papel da arte ou criatividade, como uma característica muita humana e menos “replicável” pelas máquinas.

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