Inteligência Aumentada

Chegará o tempo em que passaremos a não falar mais em inteligência artificial. Hoje esta afirmação soa estranha, mas este efeito acontece com todas as tecnologias à proporção que elas passam a fazer parte do nosso dia a dia.
A eletricidade é um exemplo. Ela passa despercebida na nossa frente a todo momento. Mas, naturalmente viveu seus momentos de fama, desde sua descoberta pelo filósofo Tales de Mileto – que no século V a.C. observou que o âmbar (élektron, em grego) tinha a propriedade de adquirir carga elétrica ao ser friccionado – passando por Alessandro Volta com sua pilha voltaica no século XVIII, até Michael Faraday, Heirich Hertz e diversas outras mentes brilhantes que vieram transformar descobertas científicas em aplicações práticas sem precedentes. 

O mesmo efeito, se observarmos bem, vem acontecendo com outras tecnologias como os computadores e a própria internet. Elas estão em toda parte, mas não precisamos lembrar delas o tempo todo – e de fato não lembramos. Os automóveis, por exemplo, hoje possuem cerca de 70 a 100 computadores embarcados, e já se consideram as primeiras aplicações de IoT (Internet of Things, termo que remete a dispositivos conectados à nuvem), tornando a inteligência artificial um próximo passo bastante óbvio. E os carros autônomos são a consagração destas tecnologias atuando em conjunto.

É claro que a IA ainda tem caminho longo até chegarmos ao ponto dela começar passar despercebida, até mesmo porque nessa área ainda estamos num estágio equivalente ao da pilha voltaica. Por agora, o que se tornam intrigantes são suas aplicações de curto e médio prazos e os possíveis caminhos que ela poderia percorrer num horizonte maior de tempo, principalmente quando aliada à evolução da biotecnologia e da neurociência.

Competição ou cooperação?

Os embates entre o homem e o computador em jogos como xadrez, Go e Jeopardy ajudaram a aumentar a popularidade da inteligência artificial, dado que se estabelecia um parâmetro de comparação entre o desempenho da máquina e o humano tão simples quanto quem ganha e quem perde. A consequência disso, entretanto, foi a criação de um estigma no qual o computador e o homem passaram a se apresentar como competidores, e sua extrapolação envolve questões a respeito de empregos que seriam substituídos por algoritmos de IA e cenários nos quais as máquinas assumiriam o comando, emprestando inspirações da ficção científica. As questões são pertinentes, entretanto precisam ser qualificadas e colocadas em perspectiva temporal. 

Recuperando a definição de tecnologia, ela significa a aplicação prática do conhecimento científico para a solução de problemas, e pode se materializar de duas formas: ferramentas ou máquinas. Ferramentas ajudam o homem a realizar tarefas enquanto que máquinas substituem o homem na realização de tarefas. Com a IA não é diferente, e suas aplicações podem ser classificadas da mesma forma, assumindo função de ferramenta ou máquina. A questão, portanto, passaria a ser a qualificação das tarefas.

A perspectiva temporal considera a evolução da prontidão da tecnologia para assumir funções como dirigir carros, atender demandas de clientes e diagnosticar doenças, e o gradiente desta evolução acontece na medida da complexidade das mesmas. Enquanto esta curva se desenha, o espaço de cooperação homem-computador se amplia. Medicina, direito e contabilidade são áreas que já se utilizam de sistemas de computação cognitiva para tornar mais precisas as decisões de especialistas humanos.

O princípio da inteligência aumentada se baseia nesta cooperação. Imagine que um cancerologista possa contar com o apoio de um novo colega de trabalho, para que, em conjunto, elaborem um diagnóstico e prescrevam um tratamento para um paciente com leucemia. Agora imagine que este colega seja capaz de analisar milhares de artigos científicos, laudos, exames e prontuários em questão de segundos, e que ele receba atualizações sobre o tema a cada nova informação que surja ao redor do mundo. Parece ser uma boa parceria. 

Fatores propulsores

Dois principais fatores determinam a curva de aceleração da inteligência aumentada. O primeiro deles é a sofisticação dos algoritmos de inteligência artificial, o que vem avançando num passo bastante largo. Mas vale lembrar que tarefas diferentes requerem habilidades diferentes. Habilidades cognitivas simples e monodisciplinares são mais facilmente assimiladas por algoritmos, enquanto que habilidades complexas que abranjam aspectos como criatividade e imaginação ou que envolvam conhecimentos mais generalistas e multidisciplinares apresentam grau de dificuldade bastante maior.

O segundo fator diz respeito às interfaces homem-máquina. Na tecnologia atual da computação eletrônica, as máquinas recebem, armazenam e processam sinais digitais (em forma de zeros e uns). Considerando que o mundo é analógico e que nossos sentidos também o são, se faz necessário converter sinais e comandos analógicos em digitais (é como se a conversa entre o homem e o computador precisasse sempre de um tradutor AD-DA).

Hoje os comandos mais naturais são gestos (como cliques), textos e fala. Podemos informar ao algoritmo do Instagram que gostamos de um post quando clicamos no ícone “like”, podemos escrever um texto na barra do Google para que ele traga sugestões de sites sobre petshops e podemos falar com a Alexa para pedir uma música. Mas existe também uma curva que avança na sofisticação destas interações, e ela vai bastante além. Sistemas de reconhecimento facial poderiam identificar, através da expressão de seu rosto, se você “curtiu” um determinado post do Instagram ou então ler sua reação ao longo da exibição de um filme ou de uma propaganda. Sistemas de captura biométrica poderiam identificar pequenas variações na sua pressão arterial e batimento cardíaco e inferir se você se entreteve ao assistir a um vídeo. Smart watches poderiam fazer leituras biométricas e alimentar aplicativos de condicionamento físico com algoritmos personal-trainers. Headsets como o Emotiv Epoch poderiam ler seus sinais cerebrais enquanto você joga videogame para medir seu nível de entusiasmo, ansiedade e tédio a cada fase do jogo e calibrar o nível de dificuldade em tempo real. Todos estes exemplos já atravessaram a fronteira da ficção científica e estão disponíveis, muitos deles em plataformas abertas para quem quiser se aventurar a criar apps.

Colegas, subordinados e chefes inorgânicos

A ideia de colaboração presente no conceito de inteligência aumentada ilustra o homem e o computador como colegas de trabalho atuando dentro de uma equipe que tem problemas específicos para resolver, como diagnóstico de doenças ou questões jurídicas (o ROSS, advogado robô desenvolvido a partir da plataforma Watson da IBM, é um exemplo deste novo tipo de colega).

Gestores podem, portanto, ter subordinados robôs. Numa operação de customer service (atendimento a clientes), parte da equipe poderia ser formada por atendentes humanos e outra formada por IA (ou chatbots). Isso também já é realidade há algum tempo. E avançando bastante rápido, inclusive integrando-se ao WhatsApp. 

Muito bem. Mas será que poderia existir um chefe robô? Se considerarmos o chefe como sendo um gestor de atividades de uma equipe, responsável por distribuir tarefas e avaliar a performance dos colaboradores através de um sistema de métricas, não poderíamos afirmar que o “chefe” dos motoristas do Uber seria um algoritmo de IA? Máquinas são impecáveis ao realizar tarefas metódicas e orquestrar atividades, portanto é bastante razoável imaginar que esta realidade se estenda.

Conclusão

O avanço simultâneo da tecnologia da informação e da biotecnologia reconfigurará a interação entre as inteligências artificial e humana. Muitos dos impactos serão benéficos, como ganho de produtividade e velocidade na solução de problemas, entretanto outros irão requerer atenção, como as novas qualificações necessárias para os empregos do futuro. Imaginando a inteligência aumentada como um fluido composto de dois elementos que representam a inteligência humana e a artificial, é coerente supor que este último ganhe volume na medida dos avanços aqui discutidos, assim como a proporção entre atendentes humanos e chatbots tende a aumentar a favor dos colegas inorgânicos. Mas qual seria o limite disso?

Uma das discussões mais pertinentes e ao mesmo tempo um dos mistérios mais intrigantes diz respeito à nossa compreensão da consciência. A neurociência ainda possui um número desproporcionalmente maior de perguntas do que o de respostas neste campo de conhecimento, mas a modelagem computacional da consciência poderia vir a ser uma variável determinante para apontar o caminho entre dois cenários futuros. 

No primeiro deles, teríamos êxito ao modelar computacionalmente a consciência e seríamos capazes de criar seres inorgânicos conscientes e fazer uploads do nosso cérebro para uma máquina. O homem passaria a ganhar imortalidade, pois todos os problemas técnicos relacionados ao envelhecimento do corpo biológico passariam a ser irrelevantes. No segundo cenário, a consciência seria totalmente dissociada da inteligência. Dessa forma, criaríamos sistemas extremamente inteligentes, embora sem consciência. Neste cenário, como ficariam as questões essencialmente humanas como criatividade, intuição e imaginação? Essas características seriam relevantes no futuro?

Aterrissando novamente a discussão, ao longo das próximas décadas o que se visualiza é um aumento da cooperação entre as inteligências artificial e humana, acontecendo de maneira cada vez mais natural e muitas vezes despercebida. Será como a eletricidade. Não a vemos e tampouco falamos dela, mas não vivemos mais sem ela.

por Paulo André Domingos
paulo.andre@culturetechies.com.br

No filme “Prometheus” (2012), de Ridley Scott, o robô David questiona o motivo de sua criação, demonstrando sinais de consciência. (https://www.imdb.com/title/tt1446714/?ref_=fn_al_tt_1)
prometheus

4 comentários sobre “Inteligência Aumentada

  1. Paulão, como sempre cirúrgico nas suas colocações.
    Em relação sobre sua citação do reconhecimento facial, já percebemos e usamos isso no banco Neon, onde o app solicita uma “piscada” para autorizar operações simples, como a troca de senhas ou acesso a uma determinada função.

    Obrigado por nos brindar com conhecimento! abraços.

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  2. Muito bom Paulo. Seus textos sempre nos faz refletir sobre o futuro, que já está logo ai…
    A inteligencia aumentada nos trará aplicações onde se complementem as habilidades cognitivas dos seres humanos com todas as facilidades e oportunidades que a tecnologia nos proporciona.
    Parabéns!!

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