Os termos fuzzy e techie surgiram na universidade de Stanford como apelidos para os estudantes das ciências humanas e exatas, respectivamente. A aptidão para engenharia, matemática e ciências da computação define a tribo techie, enquanto que os fuzzies representam os historiadores, sociólogos, artistas e filósofos. Apesar do caráter divertido dos termos, esta polarização reflete uma antiga ideia de oposição entre estas áreas de conhecimento. Em seu ensaio “As duas culturas”, publicado em 1959, o cientista e romancista britânico Charles Percy Snow defendia a tese de que a vida intelectual da sociedade ocidental havia sido erroneamente dividida em duas culturas – as ciências e as humanidades – o que viria a se tornar, na sua visão, um grande obstáculo para a solução dos problemas do mundo.
Em tempos de apps e startups, as habilidades em tecnologia ganham forte evidência, entretanto as competências fuzzies possuem papel com mesmo grau de importância e relevância quando se fala, por exemplo, de inovação. Soluções inovadoras requerem criatividade e compreensão do contexto humano na mesma medida que requerem algoritmos. Scott Hartley se inspira na tese de Snow ao evidenciar a (re)união destas “duas culturas” em exemplos atuais de organizações que se propõem a solucionar problemas importantes do mundo, em seu livro “O fuzzy e o techie”.
A combinação de diferentes campos de conhecimento contribui fortemente para desenvolver criatividade e inovação, e isso não é de hoje. A história nos traz notáveis exemplos como Galileu Galilei, que era físico, astrônomo, matemático, músico e filósofo, e Leonardo Da Vinci, cuja inventividade resultava da combinação inusitada de disciplinas como arquitetura, anatomia, pintura, biologia, engenharia e o estudo de luzes, sombras e cores.
A origem da criatividade
A maioria das culturas antigas não tinha o conceito de criatividade. A criatividade artística, por exemplo, era vista como forma de imitação, e não de criação. Nesta concepção, o artista não criava, e sim imitava. Num segundo momento, a concepção precoce de criatividade viria através de uma expressão da inspiração divina, sendo os humanos considerados incapazes de criar algo novo, exceto como veículos da expressão da obra de Deus. Na cultura grega, por exemplo, as musas eram consideradas mediadoras da inspiração dos deuses.
Somente durante o período do Renascimento (séculos XIV a XVI) é que a criatividade foi vista pela primeira vez como a “habilidade de homens notáveis”. Inicia-se o principal movimento intelectual da época, o humanismo, o qual viria valorizar o homem como indivíduo. Abrandava-se a influência da religião e do misticismo sobre a sociedade e a cultura, ao mesmo tempo que se valorizavam racionalidade e ciência. Leonardo da Vinci representa maravilhosamente bem este pensamento. A diversidade de disciplinas era um vetor importante de sua capacidade criativa por gerar manifestações resultantes de conexões não óbvias em forma de pinturas, desenhos, instrumentos musicais, armas e protótipos de humanoides (robôs), paraquedas e planadores.
E a inovação?
Criatividade e inovação não são sinônimos. Criatividade pode ser definida como a descoberta associada à inspiração, muitas vezes instantânea e abstrata, enquanto que a inovação remete ao trabalho organizado para a realização de algo concreto, aplicável e que gera valor. Essa visão de aplicabilidade prática é importante, pois diferencia uma inovação de uma invenção. Assim como a tecnologia é a aplicação prática do conhecimento científico, a inovação pode ser considerada a aplicação prática da criatividade, numa analogia simples.
Pode-se dizer também que a criatividade é do indivíduo enquanto que a inovação em geral é colaborativa, ou seja, de um grupo. A diversidade de áreas de conhecimento estimula no indivíduo a criatividade não somente por estabelecer conexões não óbvias entre conhecimentos de campos distintos, mas também por permitir criar associações. Uma solução criativa para um problema no campo da arquitetura poderia, por exemplo, utilizar como modelo uma abstração proveniente dos campos da anatomia ou da biologia. Dessa maneira, modelos mentais são emprestados de campos de conhecimento diferentes para resolver um determinado problema.
Num raciocínio análogo, para os grupos com maior diversidade de conhecimentos a quantidade e variedade de tipos de abordagem amplifica a chance de que soluções inovadoras apareçam, num formato de trabalho colaborativo. Um time composto de sociólogos, físicos e linguistas viria a trazer soluções mais inovadoras do que a de um outro formado apenas por engenheiros, por exemplo. Quanto maior a diversidade, maiores serão as capacidades criativa e inovadora.
Do ouro ao silício
Em 1848 a guerra travada entre Estados Unidos e México chegaria ao fim e com isso a Califórnia passaria a se tornar território americano, assim como Novo México, Utah, Nevada e Arizona. O que estas regiões também tinham em comum é que se tratavam de territórios em sua grande parte desérticos e muito pouco habitados. No mesmo ano, na região de Sierra Nevada, no centro da Califórnia, o carpinteiro James Marshall encontrou ouro e em pouco tempo a notícia começou a ser divulgada por um jornal da cidade portuária de São Francisco, então um vilarejo. A partir desse evento, desdobrou-se uma corrida para a região em busca da oportunidade de riqueza. Era tudo o que o governo americano precisava para confirmar a vocação dos Estados Unidos como um país continental e assim promover uma acelerada ocupação dos territórios a oeste. Estima-se que em cinco anos mais de 300 mil pessoas dos EUA e de outros países migraram para a Califórnia, o que representou uma grande transformação para uma região que, em 1848, possuía uma população de cerca de 14 mil habitantes.
Este movimento viabilizou a elevação da Califórnia a estado americano em apenas dois anos e o “marketing viral” em torno da descoberta do ouro ajudou a transforma-la na terra das grandes oportunidades (the Golden State). Um dos seus principais legados foi a formação de uma população de altíssima diversidade com um caráter especialmente empreendedor, criativo e inovador, o que ajudou a impulsionar as indústrias do cinema e da tecnologia da informação.
Conclusão
A diversidade é um ingrediente importante para criatividade e inovação. Desde Galileu e Leonardo até as startups do Vale do Silício e os estúdios da Pixar, a combinação fuzzy-techie vem se mostrando extraordinária na sua capacidade de surpreender e a entregar inovação em forma de arte, entretenimento, produtos, serviços e modelos de negócio.
A diversidade contribui para o indivíduo no desenvolvimento de conexões não óbvias que estimulam criatividade e poder associativo, livrando-o de conceitos preestabelecidos que viriam limitar seu espectro de soluções. Para o grupo, amplifica perspectivas na criação de soluções inovadoras. Quanto maior a diversidade – seja de culturas, gêneros, origens ou áreas de conhecimento – maior a empatia no desenvolvimento de produtos e serviços para atender a um número maior de pessoas ao redor do mundo.
Retornando à criatividade, sua concepção como a “habilidade de homens notáveis” simboliza muito bem o pensamento humanista, num momento no qual o homem passava a ser reconhecido como protagonista. Uma questão intrigante que viria na sequência seria sobre a possibilidade das máquinas se tornarem criativas (ou inovadoras). Hoje os algoritmos computacionais são capazes de aprender tarefas e conhecimentos específicos com mais facilidade, mas nada impediria que eles ganhassem cada vez maior poder de generalização. Um dos principais fatores que fez o homo sapiens se tornar a espécie dominante foi sua capacidade de se organizar em redes, ou seja, de criar estruturas colaborativas como as tribos, religiões, exércitos, universidades e empresas. Um caminho para a criatividade artificial poderia vir a ser a criação de uma rede de inteligências artificiais especialistas em diferentes áreas do conhecimento colaborando entre si?
por Paulo André
paulo.andre@culturetechies.com
Segue sugestão de um filme bastante criativo, que mistura ficção científica com música: “The History of Future Folk” (2012), de John Mitchell (https://www.imdb.com/title/tt2245195/?ref_=nv_sr_1)

Segue também como sugestão o livro “The fuzzy and the techie – Why the liberal arts will rule the digital world” (2018), de Scott Hartley.


Excelente texto!!
De fato, a diversidade e a melhor solução para crescimento tecnológico e cultural.
Muito boa análise!!
CurtirCurtir
Os textos são excelentes. Nos dão uma visão maior de toda a evolução que estamos vivendo e de maneira abrangente.
A importância da diversidade e do trabalho em equipe.
Parabéns!
CurtirCurtir
Parabéns pelo artigo e obrigado por propiciar momentos de reflexões fora da caixa (não achei expressão melhor..rs)
“Um caminho para a criatividade artificial poderia vir a ser a criação de uma rede de inteligências artificiais especialistas em diferentes áreas do conhecimento colaborando entre si?” Não tenho a resposta, mas, por via das dúvidas, melhor evitar essas interações entre as IA’s enquanto o homem não tiver certeza do seu controle.
Torço muito para que a diversidade entre as competências individuais sempre prevaleça.
CurtirCurtir