Ao trazermos a ideia de que música e tecnologia estão relacionadas, provavelmente ninguém vai estranhar. Esta associação nos parece bastante natural, e creio que isso se deve ao fato de que a tecnologia transformou muito rapidamente a forma de armazenar, reproduzir e comercializar música. Fica repetitivo dizer o quanto o iTunes revolucionou a indústria fonográfica e quanto o Napster foi o desbravador da distribuição de música em formato digital. Considerando isso, gostaria de trazer três diferentes abordagens sobre a relação entre música e tecnologia. A primeira delas se desenvolve a partir da ideia da música como forma de ciência. A segunda se refere a uma breve passagem pela história das tecnologias de armazenamento de música e a terceira aborda algumas tecnologias atuais de produção musical.
A ideia da música como ciência
O mundo grego dos séculos VII a V a.C. abrangia a costa do mar Egeu, boa parte do Mar Negro, além do sul da Itália e das regiões costeiras da França, Espanha e África. Nele incluía-se a cidade de Mileto, região hoje pertencente à Turquia, onde nasceu Tales, considerado o primeiro filósofo da história. Curiosamente, apesar da filosofia (literalmente traduzida como “paixão pelo conhecimento”) ter nascido no mundo grego, ela só chegou à Grécia quase cem anos depois, em Atenas, onde viveu Sócrates, que se tornou a referência da filosofia ocidental. Com efeito, ela passaria a ser dividida em dois períodos: pré e pós-socrático. No primeiro deles, a principal preocupação era saber de que era feito o mundo e o ser humano, e a pergunta mais importante era “de que são feitas as coisas?”. A partir desse momento, os pensadores passariam a colocar o raciocínio à frente da mitologia e a trazer significado para os fenômenos naturais. Assim surge a filosofia natural, que consistia na observação da natureza, e que por sua vez deu origem à ciência.
A ideia de música como ciência nasce com Pitágoras (século VI a.C.), que encontrou as relações intervalares entre os sons e construiu um instrumento de uma única corda chamado monocórdio (desculpem pelo pleonasmo enfático) para o experimento. A divisão da corda pela metade definia um intervalo de oitava, e divisões sucessivas configuravam diferentes intervalos. Estabeleceu-se, dessa forma, a primeira relação da música com a matemática (e a base para a teoria musical ocidental). Tratava-se de uma abordagem de música como “ciência dos números aplicada aos sons”.
E onde a tecnologia se encaixa? A história da tecnologia é a história da aplicação do conhecimento científico, associada a questões práticas como a solução de problemas, construção de ferramentas e artefatos com função prática. Também do grego, a palavra tecnologia é formada pelos radicais tékhnē (técnica, ofício) e logía (estudo). O monocórdio de Pitágoras consiste num exemplo (certamente não o primeiro) de um artefato produto de tecnologia (da época) com função musical.
Tecnologias de armazenamento de música
Se a ciência teve sua origem na observação da natureza, a música (definida pelo grego como a “arte das musas”) nasceria da imitação dos sons da natureza, muito provavelmente na pré-história. As práticas musicais se desenvolveram de acordo com contextos culturais diversos ao longo de milênios, mas os desafios de gravação e armazenamento de som (e consequentemente de música) somente foram vencidos em meados do século XIX. Em 1857, o francês Leon Scott inventou o fonoautógrafo, que foi o primeiro aparelho capaz de armazenar sons, entretanto sem a função de reproduzi-los. Com a invenção do fonógrafo por Thomas Edison, atingiu-se a capacidade de gravar e reproduzir sons a partir do uso de cilindros. Em 1887 o inventor alemão Emil Berliner introduziu o disco, a partir do aparelho gramofone. No primeiro quarto do século XX, este passou a ser substituído pela vitrola, inaugurando a era de gravações em equipamentos elétricos e impulsionando a indústria fonográfica. A partir da década de 1980 as gravações analógicas passaram a ser substituídas pela gravação digital, inicialmente utilizando o CD como mídia física e, em menos de duas décadas, em formato puramente digital. Em pouco mais de um século, a evolução tecnológica permitiu o avanço do armazenamento de música partindo de métodos puramente mecânicos, passando pelos elétricos e digitais até chegar à abstração do meio físico.
Tecnologias para produção musical
A tecnologia facilitou significativamente o processo de produção musical e por consequência reduziu drasticamente seus custos. Hoje músicos profissionais ou amadores podem produzir e publicar conteúdo musical a partir de um conjunto de aplicativos (apps) bastante simples e de baixo custo (muitas vezes gratuitos). Um artista com uma ideia sobre uma canção pode utilizar o software Logic da Apple para gravar voz e instrumentos em um ambiente que simula uma mesa de gravação multicanal. Se lhe faltar habilidade para algum instrumento específico, ele pode, por exemplo, recorrer ao marketplace on-line de serviços Fiverr e contratar um músico freelancer para gravar uma trilha de piano para sua música a partir de U$ 5,00. Esta trilha é adicionada ao Logic e ele segue adiante. Ao completar o arranjo, ele pode usar o mesmo Fiverr para contratar um serviço (gig) de mixagem e masterização (finalização) da música. Em seguida ele pode utilizar o Soundcloud para compartilhar sua composição para uma rede de cerca de 100 milhões de usuários ao redor do mundo e publicar seu álbum em plataformas de streaming como Apple Music, Deezer e Spotify através de distribuidores como o ONErpm. E, para divulgar seu trabalho, pode contratar também de forma on-line serviços de marketing digital. Com efeito, um processo que envolveria diversos agentes desde selos, estúdios, produtores, gravadoras e distribuidoras passa a ser substituído por um trabalho colaborativo assistido por ferramentas de tecnologia de relativamente fácil utilização. Ganham espaço talento e criatividade. A tecnologia ajuda com as demais etapas.
Partimos da história da filosofia para ilustrar relações entre a música e a ciência, e desta última derivaram aplicações práticas que levaram ao desenvolvimento de tecnologias que viabilizaram produção, armazenamento e distribuição da chamada “arte das musas”.
por Paulo André
paulo.andre@culturetechies.com
Um documentário bastante interessante sobre a paixão pela gravação analógica:
Sound City (2013), de David Grow, líder do Foo Fighters e ex-integrante do Nirvana (https://www.imdb.com/title/tt2306745/?ref_=nv_sr_1)


Ótimo texto Paulo!
Muito elucidativo, interessante e bem escrito.
Aguardo os próximos.
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Muito obrigado, James. Fico feliz que tenha gostado. Um grande abraço!
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Sensacional! Uma verdadeira aula de história… parabéns.
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Muito obrigado, Paulo! Um grande abraço!
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Excelente material, interessante os períodos e os tempos de evolução de cada época. Parabéns!
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Obrigado pela mensagem, Ricardo. Um grande abraço!
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Parabéns pelo texto! Verdadeira revolução no ecossistema musical. Grande abraço.
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Obrigado, Daniel! Um abraço
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Grande Paulo!
Excelente!!
Recentemente escutei um podcast super conhecido com um assunto parecido… Mas a sua abordagem está incrível e impecável …. como mencionado acima …. “praticamente uma aula” parabéns!
Aguardo os próximos.
Abração e obrigado.
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Olá, Johnee! Muito obrigado! Um abraço!
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Sensacional, Meus Parabéns! 👏👏
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Obrigado, Mônica! Um abraço!
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Parabéns Paulo.
Artigo que traz muita cultura, informação e reflexões.
Meu lado Fuzzy carrega algumas perguntas:
– Estamos perto do encerramento dos instrumentistas e, consigo, toda a industria de instrumentos musicais?
-O famoso dom, talento e aptidões serão (ou já estão sendo) substituídos pela Inteligencia Artificial?
– A criatividade é “robotizável”?
O tempo dirá…
Novamente, muito bacana essa sua iniciativa. Continue assim.
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Muito obrigado, Fernando!
Certamente a questão da criatividade deve gerar boas discussões dentro do contexto da inteligência artificial. Ótima sugestão para falarmos a respeito nos próximos artigos.
Um abraço!
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