É interessante observar o quanto o termo “digital” aparece atualmente. Materiais publicitários, discussões estratégicas nas empresas, nomes de produtos e serviços são alguns desses lugares. Em algumas situações se utiliza como sinônimo de qualidade: “ah… mas é digital… bem melhor” e em outras como definição de comportamento: “o cliente ficou digital”. E cada uso é genuíno, pois cumpre com sua função de passar a mensagem, ou seja, todo mundo entende. E, já concluindo a introdução, esta reflexão começou como uma curiosidade nerd (já vou explicar porque) e depois me levou para um outro pensamento: como a tecnologia vem criando atalhos ao introduzir algoritmos capazes de substituir tarefas do nosso dia a dia, com a beleza de tornar tudo mais simples.
A curiosidade nerd vem do seguinte: o digital não é visível nem tampouco audível. Trata-se de uma forma de representação. Sinais digitais são mais fáceis de processar, armazenar e transportar, entretanto tudo o que nossos sensores biológicos são capazes de enxergar e escutar são sinais analógicos, como por exemplo os sons (vibrações de ondas sonoras) e as imagens (luz). O que escutamos no fone de ouvido ou no alto falante é analógico, apesar de ser transportado através de uma representação digital de zeros e uns combinados. O que acontece, por exemplo, quando escutamos uma música armazenada digitalmente, é resultado de uma sequência de baldeações analógico-digitais (AD) e digital-analógicas (DA). E, como não enxergamos nem escutamos zeros e uns (pelo menos por enquanto), para que haja significado para nós o destino final é sempre analógico.
Há algumas semanas o Google anunciou um assistente digital com uma interface de voz humanizada num nível bastante impressionante, e sua demonstração foi muito bacana: ele foi capaz de agendar um horário num salão de beleza, por telefone, interagindo com um humano (que aparentemente não percebeu que estava falando com uma máquina). Por detrás desta interação, houve diversas conversões AD e DA, e gostaria de destacar algumas delas. Assumindo que alguém deu um comando de voz para a assistente digital fazer o agendamento, este foi digitalizado (AD) para ser interpretado pelo algoritmo e gerar uma série de ações. Capturar uma linha e discar para o número do salão seria uma delas. Interagir com o humano para agendar o horário seria o passo seguinte e, para isso, as instruções precisam ser transformadas em áudio (DA). Essas conversões passam a acontecer, portanto, a cada frase trocada no diálogo. Muito bem.
Considerando que o objetivo final seria o agendamento do compromisso, o que aconteceu nesta situação foi uma série de diálogos e sucessivas conversões AD e DA para que ele se cumprisse. Mas, no limite, isso não seria necessário. O elemento humano (atendente do salão) não precisaria participar desta tarefa. Bastaria uma interação entre dois algoritmos: um responsável pela agenda do cliente e outro pela agenda do salão. Os algoritmos podem se entender sem precisar de intermediação humana e diversas conversões AD e DA seriam eliminadas, criando assim muitos atalhos.
Isso leva a uma reflexão intrigante sobre atividades que, num futuro próximo, poderão ser delegadas a algoritmos. E por um simples motivo: eles às farão muito melhor do que nós. Parece um deja vu da revolução industrial, na qual máquinas passaram a assumir tarefas antes realizadas pelo homem. A diferença essencial é que se tratavam atividades mecânicas e agora são atividades cognitivas. Naturalmente isso trará impacto nas profissões do futuro, as quais passariam a exigir diferentes habilidades e a valorizar atividades mais difíceis de serem digitalizadas, mas isso pode ser tema para um outro artigo. No curto e médio prazo, continuamos nos encantando com as facilidades que o digital traz para nosso mundo analógico.
por Paulo André
pandre09@gmail.com
Segue a recomendação de um filme que tem a ver com o assunto:
Her (2013), de Spike Jonze (https://www.imdb.com/title/tt1798709/)

E este é o link para o video do assistente digital do Google mencionado no texto: (https://youtu.be/D5VN56jQMWM)

No final tudo deriva para o analógico é uma reflexão importante para lembrarmos que por traz de todas as facilidades, alimentam as mudanças de comportamentos. Não vamos mais ao banco, nem buscar a pizza, tampouco ligar para pedir, conversamos escrevendo e mesmo assim assassinamos a professorinha de português, por que desaprendemos a escrever, não gastamos tempo paquerando porque se der Match “Uhuuu!”.
Tudo isso facilitou a vida de todos e cativou um ambiente sem volta, quem sabe nos viciou, mas passamos a viver melhor por isso? As pessoas são mais felizes do que antes, toda esta facilidade se transformou em que? Distância, isolamento voluntário, milhares de amigos distantes nas redes sociais, e poucos para conversar na varanda, além de estarmos no maior surto de depressão já vivenciado no mundo. Tudo isso mostra que aomos atraídos pelo digital, mas necessitamos mesmo é do analógico.
Bela reflexão, parabéns!
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Olá, França! Tudo bem? Muito bacana sua reflexão sobre o tema. Ela traz uma perspectiva muito interessante ao associar o analógico com as relações humanas. Muito obrigado! Um grande abraço!
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Entendo que a tecnologia tem aproximado os distantes e afastado os próximos. Ganhos e perdas. Como sempre. Mas ótima conclusão sobre o objetivo final ser sempre o analógico.
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Obrigado, Fernando! Um grande abraço!
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